quarta-feira, 17 de julho de 2013

Reabilitação cognitiva ajuda a tratar dependentes químicos

O efeito da maconha, da cocaína e do crack no cérebro e o dano causado por essas drogas em funções cognitivas como memória, atenção, capacidade de planejamento e de tomada de decisões foram os temas de uma palestra apresentada pelo neuropsicólogo Paulo Jannuzzi Cunha, do Laboratório de Neuroimagem da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), no World Congress on Brain, Behavior and Emotions.

Tema foi abordado pelo neuropsicólogo Paulo Jannuzzi Cunha, da Faculdade de Medicina da USP, durante o World Congress on Brain, Behavior and Emotions | arq.pessoal

Durante o evento, realizado em São Paulo no fim de junho, Cunha apresentou dados de pesquisas recentes que mostram como a reabilitação cognitiva – feita por meio de estímulos como o jogo de xadrez – pode ajudar a recuperar parte das habilidades perdidas pelo consumo de drogas e ser fundamental para evitar a recaída de dependentes químicos em tratamento.

Leia a seguir trechos da entrevista concedida por Cunha à Agência FAPESP

Agência FAPESP – De que forma a maconha, a cocaína e o crack afetam o cérebro? 
Paulo Jannuzzi Cunha – Cada droga tem seu mecanismo de ação particular, mas todas atingem de alguma forma o sistema de recompensa cerebral, que envolve o córtex pré-frontal, a área tegmentar ventral, onde há um conjunto de neurônios responsáveis pela liberação do neurotransmissor dopamina, e o núcleo accumbens. Quando sentimos prazer – seja por um estímulo físico, como comida, seja por um estímulo emocional –, ocorre a liberação de dopamina na sinapse, que é o espaço de conexão entre um neurônio e outro. Mas não ficamos alegres o tempo todo e, para retornar à situação de equilíbrio, essa dopamina precisa ser recapturada pelo neurônio que a liberou inicialmente. As drogas impedem esse processo de recaptura e fazem com que um excesso de dopamina permaneça na fenda sináptica, estimulando a comunicação entre os neurônios do sistema de recompensa, intensificando e prolongando a sensação de prazer.

Agência FAPESP – De que maneira isso pode ser prejudicial? 
Cunha – Como as drogas estimulam muito o sistema de recompensa, mas de maneira artificial, o cérebro começa a ficar preguiçoso para produzir e liberar dopamina. Na medida em que o uso da droga vai se tornando crônico, a pessoa literalmente começa a perder os prazeres da vida e a sensação de bem-estar vai ficando cada vez mais restrita ao uso da droga.

Agência FAPESP – Mas como isso afeta as funções cognitivas? 
Cunha – Tudo o que fazemos precisa envolver um certo grau de prazer e bem-estar; caso contrário, não conseguimos manter a atenção por muito tempo na atividade. Então o sistema de recompensa está de alguma forma relacionado com funções executivas, memória, atenção, planejamento e tomada de decisões. Além disso, no uso agudo da cocaína e do crack, ocorre uma vasoconstrição e aumento da pressão arterial. Isso aumenta o risco de um acidente vascular cerebral e de entupimentos de pequenos vasos sanguíneos (isquemias). O uso crônico dessas drogas faz com que várias regiões do cérebro fiquem mal irrigadas, o que também pode afetar o processamento cognitivo. Os danos são ainda maiores quando a cocaína é associada ao consumo de álcool, pois a mistura das duas drogas causa a formação no fígado de um metabólito chamado cocaetileno, que intoxica os neurônios e pode causar danos ao coração. O crack, por ser absorvido mais rapidamente, causa os mesmos efeitos da cocaína e de forma ainda mais intensa. Já a maconha não causa a vasoconstrição, mas há estudos que mostram outras alterações vasculares, aumento no risco de derrame e a diminuição de certas regiões do cérebro como a amígdala e o hipocampo, que são ricas em receptores para o tetrahidrocanabinol (THC). Isso pode afetar diretamente a capacidade de memorização e a regulação de emoções como medo e agressividade.

Agência FAPESP – É por esse motivo que a maconha é considerada um fator de risco para o desenvolvimento de transtornos psicóticos? 
Cunha – A maconha aumenta o risco de desenvolver sintomas psicóticos, mas os mecanismos relacionados a esse fato ainda estão sendo estudados. A suscetibilidade parece estar ligada tanto a características genéticas como ao histórico de vida do usuário de maconha, a forma como ocorreu seu desenvolvimento neuropsicológico e seu estado psicológico no momento em que faz uso da droga. Há estudos que indicam que portadores de um determinado polimorfismo no gene que codifica a enzima catecol-O-metiltransferase (COMT) apresentam risco maior de desenvolver sintomas psicóticos se consumirem maconha. Um estudo do nosso grupo reforça a hipótese de que o cérebro de portadores de transtornos psicóticos – entre eles esquizofrenia e transtorno bipolar – que usam maconha é diferente do cérebro de portadores de psicoses sem história de uso de maconha.

Agência FAPESP – Como foi feito esse estudo? 
Cunha – Os dados foram coletados durante o doutorado da Maristela Schaufelberger, na FMUSP, hoje docente na USP de Ribeirão Preto, e parte deles foi analisada durante meu pós-doutorado, que conta com apoio da FAPESP. Os resultados foram divulgados na edição de julho da revista Schizophrenia Research. Nós comparamos, por meio de exames de neuroimagem, o volume de certas áreas cerebrais de 80 voluntários sadios e não usuários de drogas, com 78 portadores de transtornos psicóticos não usuários de droga e com 28 portadores de transtornos psicóticos com histórico de uso de maconha. Também comparamos o desempenho de cada grupo em testes que mediam fluência verbal, memória operacional e a amplitude da atenção.

Agência FAPESP – Quais foram os resultados? 
Cunha – Era de se esperar que os psicóticos usuários de maconha se saíssem pior nas duas avaliações, mas curiosamente eles tiveram resultados mais parecidos com os do grupo controle. Os psicóticos não usuários da droga apresentaram volume cerebral menor, principalmente no córtex pré-frontal – ligado às funções executivas – e nas áreas hipocampais – ligadas à memória. Outros estudos recentes também estão apontando essa relação.

Agência FAPESP – Haveria algum efeito benéfico da maconha? 
Cunha – Não parece ser o caso. Do ponto de vista dos efeitos cerebrais, a maconha fumada está cada vez mais potente e mais rica em THC, que é o princípio ativo da droga e que está associado fortemente com problemas cognitivos e sintomas psicóticos. Por outro lado, há autores que defendem a hipótese de que o canabidiol (CBD), outra substância presente na maconha, poderia ter algum efeito neuroprotetor. Mas nossos dados não permitem afirmar isso, até porque não temos informações sobre a concentração de CBD e THC na maconha que os pacientes fumaram. Além disso, quem fuma maconha não absorve apenas canabidiol, mas também altas doses de THC, que conhecidamente causa danos cerebrais. Nossa hipótese é de que as pessoas que desenvolvem algum tipo de transtorno psicótico mesmo sem usar nenhum tipo de droga já apresentam algum prejuízo anterior no neurodesenvolvimento, talvez desde a infância, que faz com que o quadro inicial seja mais severo e as anormalidades cerebrais também. Já o paciente psicótico com história de uso de uso de maconha teria inicialmente um perfil neuropsicológico mais preservado, mas com a desestruturação funcional decorrente da psicose, em sua fase inicial. Mas, à medida que a doença avança, o quadro se torna igualmente grave nos dois grupos, pior ainda se o uso de maconha persistir. Os usuários de maconha não apresentam uma psicose mais leve que os demais.

Agência FAPESP – Por que certas pessoas são mais suscetíveis aos prejuízos causados pelas drogas e outras mais resistentes? 
Cunha – Há fatores genéticos e ambientais. Todos os estímulos que recebemos ao longo da vida, a cultura adquirida, o aprendizado de línguas e de novas habilidades, fazem com que o cérebro forme um maior número de sinapses e isso gera uma reserva cognitiva. Quanto maior for essa reserva, maior é a resistência ao déficit causado pelas drogas ou por doenças como Alzheimer nas funções executivas e na memória. Agora estamos estudando como a reabilitação cognitiva, que é uma espécie de musculação cerebral, pode ajudar a compensar o déficit funcional causado pelas drogas. Já temos dados que indicam que, quanto maior o prejuízo às funções executivas, maior o risco de um dependente em tratamento voltar a usar a droga.

Agência FAPESP – Como foi feito esse estudo? 
Cunha – Participaram 32 pacientes com diagnóstico de dependência de cocaína ou de crack, entre 18 e 45 anos, internados na Enfermaria do Comportamento Impulsivo do HC-FMUSP. Após a semana de desintoxicação, quando o teste toxicológico deixou de detectar os metabólitos da droga na urina dos pacientes, eles foram submetidos a diversos testes de avaliação das funções executivas, como atenção sustentada (manter o foco por período prolongado), atenção alternada (observar dois estímulos sequenciais, como números e letras, ao mesmo tempo), capacidade de abstração, flexibilidade cognitiva (adaptar-se a novos padrões de raciocínio), planejamento e tomada de decisões pensando no futuro. Após o período de internação de aproximadamente cinco semanas, o seguimento foi feito por telefone durante um mês. Os pacientes que recaíram durante esse período de seguimento foram os que apresentaram no início do tratamento o pior desempenho nos testes de avaliação das funções executivas. Dessa forma, os déficits cognitivos podem ser interpretados como indicadores da probabilidade de recaída dos dependentes. A pesquisa foi desenvolvida durante o mestrado da neuropsicóloga Priscila Dib Gonçalves, que contou com apoio da FAPESP e foi orientada por Arthur Guerra de Andrade. Agora, durante o doutorado, ela está avaliando o impacto da reabilitação cognitiva no tratamento, a partir de um novo modelo de reabilitação cognitiva que nós criamos, chamado “Xadrez Motivacional”.

Agência FAPESP – Como funciona esse modelo? 
Cunha – Usamos o jogo de xadrez aliado a técnicas de uma abordagem científica conhecida como Entrevista Motivacional, em que a terapeuta ajuda o dependente a entender as motivações que o levam a usar drogas e o auxilia a traçar metas para o futuro e estratégias para manter-se longe das drogas. Por meio de exames de ressonância magnética, estamos também investigando as regiões cerebrais ativadas durante a reabilitação, com apoio de Geraldo Busatto, que coordena o Laboratório de Neuroimagem da USP, com auxílio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Sabemos que os dependentes químicos têm danos generalizados em várias regiões, mas pensamos que aqueles da região pré-frontal – que coordena as funções executivas – são os mais relacionados com as recaídas e a dificuldade de aderir ao tratamento. Por isso, focamos na reabilitação dessas áreas pré-frontais. Nosso objetivo é investigar se o treinamento de fato faz com que essas regiões cerebrais funcionem melhor.

Agência FAPESP – Como a reabilitação cognitiva atua sobre o cérebro? 
Cunha – Trazer de volta os neurônios que já morreram é impossível, mas podemos estimular as áreas que continuam preservadas e deixá-las mais fortes para compensar o déficit cognitivo. É a chamada neuroplasticidade. Os dados preliminares já evidenciam melhoria cognitiva nesses pacientes, mas precisamos ir além e entender de que forma isso representaria melhoria na vida diária e na recuperação deles a longo prazo. 

Por Karina Toledo | Agência FAPESP

quinta-feira, 14 de março de 2013

Comissão contra o Crack inicia seus trabalhos


Em sua primeira reunião, deputados elegem presidente e reforçam compromisso em minimizar o problema das drogas.

Transformada em comissão permanente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a Comissão de Prevenção e Combate ao Uso de Crack e Outras Drogas elegeu, na tarde desta quarta-feira (12/3/13), seus presidente e vice-presidente, respectivamente os deputados Vanderlei Miranda (PMDB) e Paulo Lamac (PT).

O novo presidente anunciou a Marcha contra o Crack e Outras Drogas, que será realizada no dia 15 de junho. “O crack não tem rosto, ele perambula pelas ruas, está nas mansões, nas periferias e até nas zonas rurais. Vitima nossas crianças e nossas famílias. Esta não é uma luta apenas da Assembleia, é uma luta de todos”, disse. O vice-presidente, por sua vez, chamou o problema que o Estado tem enfrentado com o crack de epidemia e disse que a concretização dessa comissão é um passo importante para combater a mazela.

Ambos estiveram também à frente dos trabalhos em 2012, quando a o grupo ainda era uma comissão especial. No início deste mês, o Projeto de Resolução (PRE) 3.802/13, de autoria da Mesa da ALMG, alterou o Regimento Interno da Casa para transformá-la em comissão permanente. O deputado Glaycon Franco (PRTB) lembrou que essa é a primeira comissão permanente para tratar o assunto das drogas nas assembleias legislativas. “Minas Gerais está mais uma vez na vanguarda”, afirmou. Marques Abreu (PTB) disse que a comissão enfrentará o problema de frente.

Comissão Especial da PEC 44/13 elege presidente e vice
Na primeira reunião da Comissão Especial da Proposta de Emenda à Constituição 44/13, realizada na tarde desta quarta-feira, foram eleitos os deputados Sargento Rodrigues (PDT) para a presidência e Wilson Batista (PSD) para a vice-presidência. A comissão foi criada para emitir parecer sobre a PEC 44/13, de autoria da Comissão Especial para o Enfrentamento do Crack, que funcionou na ALMG em 2012.

A proposta tem por objetivo destinar a arrecadação adicional proveniente do aumento do ICMS sobre bebidas e cigarros ao Fundo Estadual de Prevenção, Fiscalização e Repressão de Entorpecentes. Os deputados da Comissão Especial para o Enfrentamento do Crack acreditam que esses novos recursos são essenciais para conter o agravamento da questão das drogas no Estado.

via Imprensa | ALMG

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Capacitação para quem lida com dependentes de drogas

erosbiondini.com

Curso online será oferecido pela Unesp a trabalhadores de comunidades terapêuticas

Estão abertas até o dia 8 de março as inscrições para os profissionais vinculados à comunidades terapêuticas em todo o Brasil, que assistem dependentes de drogas, para  participarem de um curso de capacitação oferecido pela Faculdade de Medicina (FM) de Botucatu, em parceria com a Famesp, promovido pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad). Serão oferecidas 10 mil vagas e todas as aulas, acompanhadas por tutores, serão realizadas à distância.

As inscrições podem ser feitas pelo site www.capacitact.senad.gov.br e até cinco profissionais por comunidade terapêutica poderão se inscrever. Após uma analise do perfil do candidato, com base no preenchimento de um formulário, será enviada uma confirmação da inscrição.

A FM foi escolhida pelo governo federal para se tornar um centro nacional de capacitação de comunidades terapêuticas. Para a realização do projeto, a Senad destinou, inicialmente, R$ 2,7 milhões para que a instituição oferecesse o curso a cinco mil profissionais.  No entanto, o número de vagas foi ampliado para 10 mil e foi solicitado reajuste.O repasse deve passar para  R$ 4,6 milhões.

Estima-se que o Brasil tenha aproximadamente três mil comunidades terapêuticas que oferecem assistência a pessoas dependentes de álcool e drogas. Atualmente, faltam hospitais e ambulatórios suficientes voltados a esse atendimento.

Com apoio do Núcleo de Educação a Distância e Tecnologias de Informação em Saúde (NEAD.TIS) da FM, os alunos, que poderão ser gestores, líderes, terapeutas, voluntários de comunidades terapêuticas - acompanharão as aulas pela internet, através da plataforma Moodle, e poderão obter esclarecimentos com a ajuda dos tutores. Pelo correio serão distribuídos kits compostos por apostilas e videoaulas. As dúvidas serão resolvidas no próprio site do curso; por e-mail ou ainda através de um telefone 0800.

Para compor a equipe, serão selecionados 200 tutores. Já foram selecionadas 150 pessoas, entre médicos, enfermeiros e psicólogos, assistentes sociais,terapeutas ocupacionais e farmacêuticos, entre outros profissionais de saúde. Todos passarão por treinamento. Todos estes tutores devem morar a não mais do que 100 km da FM de Botucatu.

Os tutores receberão suporte de especialistas da FM/Unesp, que por sua vez serão coordenados por professores da instituição.

Qualificação pode resultar em ajuda financeira para entidades
Segundo a professora Florence Kerr-Corrêa, do Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria da FM, coordenadora do projeto, as comunidades terapêuticas com seus representantes capacitados poderão receber recursos financeiros. “Essas entidades, que focam o tratamento tanto individual como em atividades de grupo, serão vistoriadas e, se aprovadas, poderão receber verba do governo federal para poderem aprimorar sua estrutura”, explica.

Duas pesquisas serão desenvolvidas paralelamente à realização do curso. Os estudos deverão avaliar a adesão das comunidades terapêuticas, dificuldades, aplicabilidade do conteúdo transmitido e também serão aplicados questionários para avaliar a mudança de atitudes e expectativas dos profissionais após o treinamento.

Leandro Rocha | Comunicação e Imprensa da FM

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Holanda se arrepende de liberar drogas e prostituição


"O comentarista Carlo Germani nos manda um importante artigo, mostrando que a Holanda, um dos países mais liberais do mundo, está em crise com seus próprios conceitos. O país que legalizou a eutanásia, o aborto, as drogas, o “casamento” entre homossexuais e a prostituição reconhece que essa posição não melhorou o país. Ao contrário: aumentou seus problemas." 

Leia este artigo completo no blog Conservadorismo Brasil:



quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Dependência química mobiliza autoridades e sociedade civil

Araípedez Luz P10
A busca por mecanismos para tratar a questão da dependência química mobilizou autoridades, entidades e sociedade civil nesta terça-feira (29). 

As formas de tratamento de viciados em drogas foi o assunto mais abordado durante uma reunião realizada na Sala João Pedro Gustin, na Câmara de Vereadores.

A mobilizadora social Alexia Dias destacou que o vício em tóxicos é um drama social e de saúde pública que afeta milhares de dependentes e pessoas próximas ou não a eles. “O pior é que o vício não se limita a um espaço ou grupo social. Ele está disseminado em toda a sociedade e causa inúmeros transtornos. Por isso, abordamos diversos assuntos relativos ao tema, entre eles, a internação compulsória”, afirmou. 

Existem três tipos de internação. A compulsória é determinada pela Justiça diante do risco que o dependente representa para a sociedade e que o vício significa para sua saúde. A voluntária é feita com consentimento do usuário e avaliação médica. Já a involuntária ocorre sem o consentimento do usuário, a pedido de terceiros e mediante avaliação médica.

A secretária Antidrogas e de Defesa Social, Flávia Carvalho, destacou que a pasta que administra cuida da prevenção por meio de programas levados às escolas e grupos sociais, como a Caravana Antidrogas. “Temos muito a discutir sobre drogas. A Administração Municipal é a favor da prevenção, da informação e das pessoas não experimentarem as drogas, além da capacitação de profissionais que lidam com um grande número de pessoas e famílias”, declarou.

Nos próximos dias, será produzido um documento e um vídeo pelos organizadores da reunião que será encaminhado ao prefeito Gilmar Machado. “Essa discussão já está sendo feita no governo municipal e vamos somar esforços, pois temos consciência sobre a importância do assunto. Está em nosso programa de governo o combate ao uso de drogas por meio da educação, em consonância com o trabalho da Secretaria Antidrogas que já está sendo feito”, disse o vice-prefeito Paulo Vitiello.

via Secom PMU

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Internação Compulsória: a polêmica por trás da medida


O Governo de São Paulo adota uma política polêmica que é a internação compulsória de dependentes químicos, para tentar diminuir e controlar o uso desenfreado do crack. Uma medida respaldada na ação integrada com o Ministério Público, o Tribunal de Justiça e a Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB. Um serviço que contará com Comissão Antidrogas formada por promotores, juízes e advogados, além de um plantão criado pelo Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod).

O crack é uma droga que possui efeito rápido, e que por isso, o usuário passa a não ter controle de si. A agressividade que a droga causa no organismo faz com que o indivíduo não tenha percepção da destrutividade na qual está envolvido. Pautado neste argumento, o deputado federal Eduardo Da Fonte (PP-PE) propôs a política pública que prevê a possibilidade de internação compulsória dos dependentes químicos por ordem judicial.

Atualmente existem três formas de internação, a voluntária, involuntária e compulsória. Na primeira a pessoa aceita ser encaminhada para o hospital, num período de curta duração. O tratamento é intensivo e necessário e acontece de acordo com a vontade do paciente. No segundo caso, a internação involuntária acontece quando a pessoa está em surto, agitada e agressiva exageradamente. O paciente precisa ser contido e o uso de camisa de força pode ser um recurso. Já na internação compulsória depende da intervenção de um juiz e é usada nos casos em que a pessoa esteja correndo risco de morte devido ao uso de drogas ou de transtornos mentais. Esta medida acontece mesmo contra a vontade do paciente.

Aos que defendem a medida, o principal argumento é baseado nos pífios resultados do governo em controlar a proliferação das drogas no País e que é preciso, portanto, uma medida mais enérgica contra essa mazela. Reforça o coro a favor da internação compulsória o ministro da Saúde Alexandre Padilha e o Conselho Federal de Medicina (CFM). Em contrapartida, entidades de direitos humanos e dos conselhos regionais de enfermagem, assistência social e psicologia criticaram severamente a lei, pois, além de ser truculenta, a medida causa humilhações, maus tratos e violência. A crítica ainda mais contundente possui como cerne uma espécie de “limpeza das ruas” que o governo quer realizar e que contradiz a Reforma Psiquiátrica.

A Reforma Psiquiátrica visa garantir ao doente mental cidadania, ou seja, respeito a seus direitos e a sua individualidade, permitindo a inserção na sociedade e decretando o fim ao isolamento, repressão e à arbitrariedade da eugenia. A resocialização vai contra a exclusão social e a favor de reestabelecer a afetividade e a integridade. Toda esta nova mentalidade flerta com a luta antimanicomial, ou seja, diminuir os manicômios no País. Para tal, os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) surgem como opção para atendimentos especializados em Saúde Mental, abertos e comunitários, em que os postos são transitórios para os usuários.

A internação compulsória ganha força às vésperas da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016, em que o acolhimento social defendido na medida parece um “recolhimento” social. A questão não é o crack, mas o que faz com que as pessoas estejam naquela situação. Desemprego, violência e o tráfico de drogas são os verdadeiros alvos desta luta. Investir em educação, empregos, habitação e justiça são medidas muito mais eficazes do que os imediatismos de uma faxina social.

Breno Rosostolato | Psicólogo clínico, terapeuta sexual e professor da Faculdade Santa Marcelina